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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Golpista é a presidente que, depois de fazer o diabo para garantir o segundo mandato, agora faz o diabo para se manter no cargo que conspurca



Por Augusto Nunes, 15/07/2015,
 www.veja.com.br

VALENTINA DE BOTAS

A indignação, num Brasil que apodrece quase sem gemer embevecido com a deslumbrante vista de si mesmo para o Atlântico, deveria ser instituído o quarto poder. Sim, 30 anos depois da redemocratização, este é o momento mais grave, incerto na sensação difusa, ainda que viva e carnal, de que o Brasil não adianta. Há 30 anos, Tancredo Neves vencia Paulo Maluf, o candidato da ditadura, no Colégio Eleitoral, também porque o Brasil indignado, ansiando por democracia, fora para as ruas no ano anterior buscar as diretas-já. Questão de sobrevivência. Voltou sem elas, mas sobrevivera na semeadura que cada brasileiro indignado lançara para o direito vindouro de cada um de nós errar ou acertar por si mesmo. Sem tutores.

Como um país pode ser dono de seu destino, mas não da história, esta se rebelou na morte precoce de Tancredo. O que foi, creio, na história recente, o momento decisivo para frutificar a pior geração de homens públicos: o desastroso governo Sarney, naquele pesadelo em forma de Plano Cruzado e nos passeios do jeca maranhense de limusine por Nova York, aprofundou o país na necessidade imaginária e deletéria de um salvador da pátria e, quando em 1992, pudemos decidir nosso destino, ele se apresentou na opção deformada de separar o joio do joio: votar no jeca ou em Collor.

Como o Brasil já naturalizou espantos que deixariam zonza qualquer nação sóbria, passamos do funeral repentino de um presidente querido para o impeachment de outro repudiado sem nenhum solavanco nas instituições. Ao contrário, substituir Tancredo e depor Collor legalmente foram testes pelos quais o ordeiro povo carnavalesco sagrou o estado de direito democrático. Amadurecemos e estamos prontos para mais um teste.

Hoje, vemos o futuro escapando, o país retrocedendo e a corja gozando a vida com o cofrão público, mais conhecido como o meu, o seu, o nosso lombo. Para sobreviver, eu, uma golpista que cumpre as leis; uma elitista que trabalha 12 horas por dia; uma coxinha que marchou contra a ditadura militar e pelas diretas-já, sairá à rua novamente neste 16 de agosto e lançará o grito: golpista é uma presidente que, depois de fazer o diabo para se reeleger, faz o diabo para se manter no cargo que conspurca.

Um mover asqueroso de céus e terras não para impor contra forças resistentes o saneamento de pelo menos parte dos dramas do país. Não, as estocadas intoleráveis do lulopetismo para dilatar a moral lassa que a sustenta são apenas para continuar se sustentando. Segue com desassombro amparado no fundamentalismo-institucional-do-bem-banalizado segundo o qual suspeita e impopularidade não embasam um pedido de impeachment, como se o Brasil não tivesse contra si uma presidente sem autoridade moral e política decidida a guiá-lo para a ruína cobrando caro para isso – base concreta para um pedido de impeachment ou de renúncia. Não sei se a adesão de Dilma ao poder e ao que pensa de si a permitirá renunciar. Não sei se ela, a súcia e os conformistas institucionais esperam nos convencer de que “não adianta nada”. O que sei é que isso não filtra minha indignação e a consciência de que, como há 31 anos e como tem sido para sempre ser, a história e a resistência não terminam hoje nem em nós: somos parte delas e elas sobrevivem em nós.

O gatuno que comandou a roubalheira na Transpetro é mais um bandido de estimação de Lula e Dilma



Sérgio Machado e o quarteto insaciável não teriam feito o que fizeram sem a bênção da dupla de protetores de delinqüentes

Por Augusto Nunes, 19/06/2016,
www.veja.com.br

Todas as figuras citadas nos depoimentos de Sérgio Machado, sem exceção, devem ser incluídas na devassa conduzida pela Lava Jato. Se comprovada a veracidade da acusação, os culpados serão punidos. Caso contrário, o acordo de delação não terá validade e Machado vai envelhecer na cadeia. Simples assim. Nenhum meliante da classe executiva está fora do alcance da ofensiva apoiada irrestritamente pelo país que presta.

Brasileiros decentes não têm bandidos de estimação. Não se prestam ao papel de coiteiro desempenhado por Lula e Dilma Rousseff com muita aplicação e notável desfaçatez. Em 2003, a pedido de Renan Calheiros, o ex-senador cearense foi premiado por Lula com a presidência (e o cofre) da Transpetro. Nos anos seguintes, até as bombas dos postos de gasolina se assombraram com a roubalheira consumada por Machado em sintonia com os chefões do PMDB — sempre sob a proteção do Planalto.

Mantido no emprego por Dilma, o notório vigarista seguiu depenando em sossego o assalto à subsidiária da Petrobras. Deu no que deu. Os principais beneficiários das ladroagens descritas pelo delator foram os senadores José Sarney, Romero Jucá, Renan Calheiros e Edison Lobão, que acertaram com Lula o casamento do PT com o PMDB. Os casos de polícia protagonizados por Machado e por quatro vorazes pais da pátria não ocorreram depois da posse de Michel Temer, mas nos 13 anos de hegemonia da organização criminosa disfarçada de coligação partidária.

José Sarney, por exemplo, voltou a presidir o Senado por vontade de Lula, que retribuiu os bons serviços prestados pelo antigo dono do Maranhão com um título honorífico — Homem Incomum — e operações de socorro que mantiveram no cargo (e em liberdade) um prontuário de bigode. Romero Jucá foi ministro da Previdência e depois líder do governo Lula no Senado. Renan foi discípulo do palanque ambulante até virar conselheiro de um poste. Edison Lobão foi ministro de Minas e Energia da supergerente de araque.

Tão minucioso ao relatar bandalheiras envolvendo integrantes dos partidos que hoje se opõem ao PT, Machado evitou detalhar episódios de que participaram os principais responsáveis por sua longa temporada à frente da Transpetro. Mesmo assim, a revelação mais relevante está na soma dos depoimentos: conjugados, eles escancaram a paternidade da gangrena que consumiu durante 12 anos esse braço da estatal petroleira.

Como todos os participantes do maior esquema corrupto da história, Machado e o quarteto insaciável não teriam feito o que fizeram sem a bênção militante de Lula e Dilma. Todos roubaram impunemente graças aos dois coiteiros de meliantes. O resto é conversa de quadrilheiro apavorado com a expansão da República de Curitiba.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Ministério da Cultura fazia fiscalização 'pífia', diz MP sobre grupo que desviou R$ 180 mi



A Operação Boca Livre, deflagrada hoje, prendeu 14 pessoas que fraudavam a captação de recursos via Lei Rouanet

Por Nicole Fusco, 28/06/2016,
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Polícia Federal deflagrou na manhã de hoje a Operação Boca Livre

O Ministério Público Federal entende que o Ministério da Cultura exerceu uma fiscalização "pífia" em relação aos projetos apresentados pelo grupo de produtores culturais alvo da Operação Boca Livre, deflagrada nesta terça-feira pela Polícia Federal. A ação, que cumpriu 51 mandados judiciais em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Distrito Federal, mirou um esquema de fraudes na captação de recursos junto ao Ministério da Cultura por meio da Lei Rouanet.

Conforme mostraram as investigações, na maioria dos casos os projetos eram apresentados em duplicidade. Ou seja, continham o mesmo conteúdo, o mesmo folder de apresentação, o mesmo projeto e tinham apenas o nome alterado. "O Ministério da Cultura exercia uma fiscalização pífia ou nenhuma para que esses projetos plagiados e copiados não fossem identificados como tais", afirmou a procuradora Karen Louise Jeanette Khan, em entrevista coletiva concedida em São Paulo na manhã de hoje.

O grupo, composto por catorze pessoas - todas presas nesta manhã na capital paulista -, agia desde 2001 e conseguiu desviar 180 milhões de reais por meio da Lei Rouanet. Segundo a Polícia Federal, os criminosos apresentavam projetos ao Ministério da Cultura para captação de recursos com a iniciativa privada. Esses projetos eram superfaturados e os valores eram revertidos em favor do próprio grupo e de seus patrocinadores. "O objetivo da lei [Rouanet] em momento algum foi atingido. Vimos eventos privados sem nenhum cunho cultural", disse o delegado regional da PF, Rodrigo de Campos.

As empresas que patrocinavam os projetos fraudados se beneficiavam duas vezes do esquema: pela parcela do superfaturamento que era repassada a elas e também por meio da dedução do Imposto de Renda, conforme prevê a Lei Rouanet. Além disso, em alguns casos, a Controladoria-Geral da União (CGU), que atuou em parceria com a Polícia Federal nas investigações, identificou o pagamento de propina de 30% dos valores captados junto ao Ministério da Cultura, que seriam pagos por esse grupo de produtores culturais às empresas patrocinadoras.

Além do Ministério da Cultura, as investigações citam as empresas Bellini Eventos Culturais, Scania, KPMG, o escritório de advocacia Demarest, Roldão, Intermédica Notre Dame, Laboratório Cristalia, Lojas 100, Nycomed Produtos Farmacêuticos e Cecil. O casamento do filho do empresário Antonio Carlos Bellini Amorim, do Grupo Bellini, em Jurerê Internacional, em 25 de maio deste ano, seria um dos eventos bancados com verbas da Lei Rouanet. Em dois vídeos sobre o evento, divulgados em redes sociais, um no dia anterior ao casamento e outro na cerimônia, é possível ver os convidados com taças de bebidas.

A ilha de honradez cercada de prontuários por todos os lados submergiu no oceano da bandidagem



Um time formado por amigos e ministros de confiança de Dilma faria bonito no campeonato nacional do sistema carcerário

Por Augusto Nunes, 26/06/2016,
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A lista que se segue agrupa, em ordem alfabética, alguns amigos íntimos de Dilma Rousseff e ministros que sempre gozaram da irrestrita confiança da chefe: Aloizio Mercadante, Anderson Dornelles, Antonio Palocci, Carlos Gabas, Edinho Silva, Erenice Guerra, Fernando Pimentel, Giles Azevedo, Gleisi Hoffmann, Gim Argello, Ideli Salvatti, Jaques Wagner, João Vaccari Neto, José Dirceu, Luís Inácio Lula da Silva e Paulo Bernardo.

São 16 prontuários ambulantes. Se nem desconfiou do que faziam, Dilma é, simultaneamente, uma ilha de honradez cercada de bandidos por todos os lados e uma nulidade incapaz de presidir um júri de concurso de miss. Se sabia e optou pelo silêncio mafioso, é cúmplice. Nas duas hipóteses, já deveria ter sido demitida da Presidência por justíssima causa.

Depoimentos resultantes de recentes delações premiadas vão desenhando uma terceira opção. Dilma não se limitou a esconder o que outros fizeram. Também fez. E fez o suficiente para merecer o respeito e a admiração dos 16 colegas da lista de casos de polícia.

Não há fichas limpas



Somos uns miseráveis cercados de miseráveis por todos os lados

Por Augusto Nunes, 21/06/2016,
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Texto de Arnaldo Jabor publicado no Globo

Não, não sei mais analisar a situação brasileira. Os fatos estão muito à frente de qualquer interpretação, que é sempre fugaz, com uma lógica que se perde em poucos instantes.

A sensação que tenho — estamos reduzidos a sensações — é que os hábitos tradicionais do velho patrimonialismo brasileiro, com suas teias ocultas de escândalos, estão arrebentando juntos e irrompendo da lama escondida por séculos.

Uma das razões é que nossa corrupção deslavada, nosso secular desgoverno se fragilizaram neste mundo contemporâneo global e digital. Nosso atraso ficou atrasado. As informações na velocidade da luz fizeram a opinião pública acordar sem saber bem para que ainda, mas já é um avanço.

Aquele estranho país, oscilando desde sempre entre o público e o privado, está deparando com um perigo: a própria ideia de “país” está ameaçada, se esgarçando com ilhas de civilização cercadas de miséria por todos os lados. Instituições continuariam existindo, mas sem poder para regular a vida social.

A consciência do desastre é grande, mas ninguém sabe o que colocar no lugar da merda que está aí. Não sabe por que talvez não haja. Como traçar um plano político onde a política se desintegrou? O Brasil é uma quadrilha. Todos estão implicados de algum modo. Nunca existiu vida sem o Caixa 2. Nisso, o Lula acertou. Esse era o método de funcionamento “normal”. Era impossível um político ignorar isso. Era normal. Agora, estão abertos os intestinos da pátria que nos pariu. E surge mais uma verdade óbvia: não há inocentes para ocupar cargos públicos. Todos são cúmplices. Não há fichas limpas. O Temer sabe disso e inteligentemente nomeou a melhor equipe econômica que já tivemos, sem contar líderes como Meirelles, Serra, Maria Silvia Bastos, Pedro Parente etc. Eles partiram para impor o óbvio na economia destroçada pelos ladrões e imbecis. Conseguirão?

A Lava Jato está matando o velho país vira-lata, graças a Deus, mas como salvá-lo, como organizar um país melhor? Tudo funcionava mal, mas funcionava pelas regras da velha roubalheira analógica. Havia até uma certa doçura nos ladrões de galinha. Depois do PT, tudo enguiçou. Sempre achei que o PT no poder seria uma previsível ladainha de slogans comunas, de voluntarismo, de gastos públicos malucos, mas nunca supus que eles pudessem causar um estrago desse porte, com 170 bilhões de buracos negros no Estado. Isso foi o resultado da estupidez ideológica aliada à direita mais feudal do país, de Lênin a Sarney. O PT não me decepcionou apenas por seus erros; ele me fez descrente da raça humana.

E vamos combinar: já há uma catástrofe. Queremos não ver, mas a evidência é perturbadora. O país foi metodicamente danificado econômica e socialmente. Eu e provavelmente muitos de vocês leitores não vamos sofrer tanto com a estagflação que vivemos. Agora, os que não lerão esta coluna, milhões de desvalidos, vão sentir na carne o novo estilo para a miséria. Vem aí a nova miséria — um “arrière-goût”, um toque de… África e Índia. Sim.

A miséria era o grande capital do governo Lula. O PT sempre teve ciúmes da miséria. Sempre que o FHC tentou cuidar da miséria, o PT reagiu como um marido enganado.

Antes, havia uma miséria “boa”, controlável. Tínhamos pena, ela aplacava nossa consciência, desde que ficasse no seu lugar. A miséria tinha uma “função social”. Achávamos que nosso escândalo ajudava os pobres de alguma forma. Para nós pequenos burgueses, a miséria era bandeira abstrata, a miséria dos outros era nosso problema existencial. O fim das ilusões gerou um desalento que dá lugar a um alívio quase feliz.

A situação é gravíssima e ninguém sabe como revertê-la. Como imaginar esse Congresso sujo aprovando reformas e ajustes contra o atraso, justamente eles que desejam o atraso, tão propício a roubalheiras mais tradicionais? O escândalo foi desmoralizado — estamos sendo arrasados pela “normalidade”. Isso. Estamos nos acostumando a essa anomalia e vamos aceitando a crescente desgraça com fatalismo ou cinismo: tinha que ser assim ou dane-se…

E aí surge a turma do “precisamos”, da qual eu faço parte, tristemente. “Precisamos” disso, daquilo, mas ninguém sabe como resolver. Não temos agentes executores da política do “precisamos”.

“Precisamos” resolver o problema da administração nos estados e municípios, que já estão sem verbas para pagar os funcionários públicos, os hospitais sem remédio, os limpa-fossas, sei lá. “Precisamos” combater a violência, mas nada funciona para impedir o crime crescente. A polícia não tem dinheiro. Os criminosos têm grana para comprar até canhões antiaéreos no Paraguai. Não é que a violência vai apenas crescer; não há como impedi-la, com traficantes vagando de metralhadora no Centro da cidade, estuprando e matando.

Como imaginar um plano possível para salvar e melhorar as favelas no Rio ou Recife ou Alagoas, em todas as cidades principais, para além das UPPs? O que fazer? Cartas para a Redação.

Esta crise é especial, talvez invencível.

Em geral, as crises surgem, acontecem e, quase sempre, somem. Acabam. Até a terrível ditadura tinha um fim previsível, mas, depois de 12 anos de absurdos do PT, esta crise agora é de areia fina, de areias movediças; ela talvez não acabe, pois não tem um defeito único a combater — é uma miscelânea de crimes históricos. A crise não tem um inimigo só — é um ramalhete de equívocos.

A miséria é a ponta suja de uma miséria maior. Nós fazemos parte dela. O Brasil está contaminado de misérias. Não existe um mundo limpo e outro sujo. Um infecta o outro.

A burocracia é miséria, a corrupção é miséria, a estupidez brasileira é miséria. A miséria não está nas periferias e favelas; está no centro da vida brasileira.

Somos uns miseráveis cercados de miseráveis por todos os lados.