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terça-feira, 29 de agosto de 2017

A máquina de gastar

Não são apenas os 43 centavos por litro, toda uma forma de governar está em jogo.

Por Augusto Nunes, 28/07/2017,
 www.veja.com.br

Fernando Gabeira publicado no Estadão

Ao decretar o aumento do imposto da gasolina, Temer rompeu com uma das mais importantes expectativas criadas pelo impeachment de Dilma. Na época em que ela caiu não se discutiam apenas as pedaladas, razão formal, mas todo o conjunto do movimento da bicicleta: uma dispendiosa máquina de governo pesando insuportavelmente nas costas da Nação.

Verdade que Temer conseguiu aprovar a lei que impõe limite aos gastos públicos. Mas a vida real está mostrando que uma simples lei não resolve se não houver mudança no comportamento do governo. Temer, por exemplo, decreta aumenta de impostos e libera verbas para deputados, algo que não é essencial no Orçamento. Ele vive uma contradição paralisante: governar para a sociedade ou para o Congresso?

Sua cabeça depende de ambos. Mas no momento ele teme mais os deputados, que têm o poder de cortá-la, aceitando a denúncia de corrupção passiva. A decisão de aumentar impostos não o enfraquece apenas na sociedade, mas também no próprio Congresso, que está em recesso, portanto, teoricamente mais próximo da vida real.

A escolha de usar um decreto, driblando uma decisão congressual, vai desgastá-lo. Está implícito na escolha que nem o Congresso aceitaria esse caminho. Mas as contradições não param aí. Embora não aceite o aumento de imposto, o próprio Congresso, no jogo de trocas com Temer, não trabalha com reduções nos gastos.

As contradições estendem-se ao projeto de demissões voluntárias. É um movimento legítimo, mas toca funcionários concursados. Economiza R$ 1 bilhão depois de aumento de salários que chegam a R$ 22 bilhões. Os próprios procuradores, cujo trabalho apoiamos, querem mais 16% em 2018. Aqui, na planície, quem tem a sorte de trabalhar se contenta apenas em não perder para a inflação.

O departamento de cargos em comissão continua de vento em popa. Em especial neste momento em que o Congresso tem o destino de Temer nas mãos.

Ao dizer que o povo iria compreender o aumento do imposto, Temer acabou expressando um desejo. Nesse campo prefiro a Dilma, com seu desejo de não ter meta e dobrá-la ao atingir esse intraduzível marco.

Todo mundo sabe que paga imposto. Ainda mais quanto incide sobre a gasolina. Mesmo os habitantes do interior do Nordeste que trocaram os jegues por motocicletas compreenderam imediatamente que foram atingidos.

O aumento de impostos tem força no imaginário histórico brasileiro: luta pela independência, derramas coloniais, Tiradentes esquartejado. Nos últimos anos os empresários acharam no pato amarelo uma versão pop de sua luta contra a pesada carga tributária.

Depois de tantos escândalos de corrupção, do espetáculo de políticos de costas para o povo, as pessoas começam a perceber que tudo isso é financiado por seu trabalho. E para simbolizar a revolta quando ela chega ao cotidiano, o pato é pinto. As coisas podem ser muito mais graves.

Temer arriscou tudo nesse aumento. Tenta o suicídio numa hora em que sua energia está concentrada em sobreviver.

Não houve, depois do impeachment, um esforço sério para conter os gastos da máquina. O déficit orçamentário previsto já era generoso, em torno dos R$ 130 bilhões. Neste momento, muitos se perguntam: por que financiar a máquina oficial, corrupta e incompetente na entrega dos serviços essenciais?

Quem se lembra das manifestações de 2013 reconhece nelas uma aspiração a serviços decentes em troca dos impostos pagos. Os serviços pioraram de lá para cá. E os impostos aumentam. Isso não quer dizer que estejamos às vésperas de manifestações do tipo de 2013. Mas quem autoriza os estrategistas de Temer a supor que o decreto não trará sérias consequências?

Estrategistas podem até pensar em jogar todas as cartas no Congresso, subestimando a reação da sociedade. Mas têm de levar em conta que há um momento em que o próprio Congresso salta do barco se a pressão social o empurrar.

É um exercício retórico falar em estrategistas. A máquina tem uma lógica própria. Ele não pode mudar o rumo porque nela está ancorado um sistema político-partidário.

O desdobramento da máquina é cruel para os que pagam impostos e ao mesmo tempo é autodestrutivo. Temer apenas deu mais um passo na direção do abismo, não necessariamente pessoal, mas do próprio sistema político, em degradação. Mas é um passo que enfraquece as perspectivas de soluções políticas com mudanças em 2018. E favorece a entrada numa zona de turbulência perigosa para a própria retomada econômica.

Mas como definir outro caminho? A máquina tem seus desígnios, ela se desloca como um iceberg que se desprende do continente. Temer já era impopular. Pode-se tornar detestável. Como um iceberg que se respeita, a máquina de governo quer fazer do Brasil o seu próprio Titanic.

Ultimamente, porém, o degelo é mais rápido. Um aumento de impostos como o da gasolina terá poder pedagógico e vai aquecer muito as aspirações por um reforma política que reflita diretamente nos rumos da máquina de gastar.

Nunca se pagou tanto por espetáculo tão desolador. Os atores contam com a tolerância da plateia, clichês como a cordialidade do brasileiro. Creio que o futuro próximo vai desvendar a natureza da máquina. O que funciona hoje como marcha da esperteza pode revelar-se amanhã a marcha da estupidez: um sistema político em extinção.

A opção de aumentar impostos abriu uma nova conjuntura, sem os lances sensacionais de uma delação premiada, mas com potencial corrosivo tão ácido como ela. Piores dias levando a melhores dias: está chegando a hora de a sociedade ajustar as contas não só com a máquina de gastar, mas com o sistema político que a anima.

Não é apenas pelos 20 centavos, dizia-se nos protestos de 2013. O aumento da gasolina representa R$ 11 bilhões por ano. Ainda assim, não serão apenas 43 centavos por litro. É toda uma forma de governar que está em jogo.


Comentários

Luis Roberto Ferreira

O dilema de Temer está entre aumentar a meta fiscal e obter condições de governabilidade com benesses que agradem aos congressistas ou, diante dos recursos cada vez mais insuficientes, tentar arrecadar com impostos o suficiente para manter a meta e a credibilidade junto aos agentes econômicos. Acredito que ele optará pela base parlamentar, já que, sem apoio do Congresso terá que pegar o seu boné e ir responder na Justiça por corrupção passiva.

Alberto de Araujo

Acredito que, se tivesse aprovada a reforma da previdência, não haveria a necessidade desse imposto. Infelizmente, “o governo agradou a oposição”. “Quanto pior melhor”. Não sei como, mas deveria mudar a cabeça dos políticos. O destino do país teria que ser prioritário. Hoje está desprezado. O que vale é o interesse político. Há alguns políticos exceção. Poucos, para influir na vontade da maioria. Agora mesmo vemos o governo Temer conseguir sinais de recuperação econômica. Inflação, juros, desemprego sendo nocauteados. Uma disposição de instituir reformas essenciais para resgatar o país do fundo do poço. Herança maldita, dos diabos, legado dos governos petistas. Desejo que o governo Temer complete o seu mandato tampão com as reformas realizadas.


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A Firma

O custo da corrupção de Cabral e sua Firma supera o valor do subsídio dado pela Prefeitura do Rio ao cartel de ônibus, estimado em R$ 32 milhões neste ano.

Por Augusto Nunes, 04/07/2017,
 www.veja.com.br


Texto de José Casado Publicado no Globo

Sérgio Cabral era um sócio oculto da Fetranspor, o cartel formado pelas 200 concessionárias de ônibus que operam no Estado do Rio. Até onde se sabe o ex-governador, nunca foi dono de frota de transporte coletivo. Nem precisava, era o chefe da Firma — como o grupo de funcionários públicos corruptos se autodenominava, contou Luiz Carlos Cabral, ex-assessor de Cabral, em depoimento na Justiça Federal.
Entre 2010 e 2016, o ex-governador recebeu R$ 122 milhões, ou seja, 47% do valor distribuído pelos empresários de ônibus à Firma.
Embolsou R$ 20,3 milhões por ano. Foram R$ 55,6 mil por dia, na média, segundo as planilhas de propinas da Fetranspor obtidas pelo Ministério Público Federal.
Não é pouco. Corresponde à receita de venda de 14,6 mil bilhetes diários ao custo de R$ 3,80 por viagem. Isso só é possível obter com 384 ônibus rodando lotados o dia todo na cidade do Rio, de acordo com o Databank da Fetranspor.
Visto de outro ângulo, o custo da corrupção de Cabral e sua Firma supera o valor do subsídio dado pela Prefeitura do Rio ao cartel de ônibus, estimado em R$ 32 milhões neste ano. Representa, ainda, mais de dois terços de outro gasto do município com transporte coletivo, o dos alunos das escolas públicas.
Começou em 1991, relatou Álvaro Novis, responsável na Firma pela organização da logística de coleta, lavagem e distribuição de propinas. Empresas de ônibus e empreiteiras como Odebrecht pagavam em espécie, dinheiro vivo.
Transportar e armazenar grandes volumes de notas de baixo valor foi um problema, logo resolvido pela intervenção de uma corretora de valores, Hoya, e a contratação de empresas regionais de segurança, como a Transegur (sucedida pela Prosegur) e pela Transexpert.
O fluxo financeiro da Firma era centralizado na corretora, onde um funcionário, Edimar Moreira Dantas, atualizava planilhas.
Ele recebeu ordens para destruí-las quando a Operação Lava Jato começou. Fez o serviço, mas antes copiou todo o movimento de 2010 a 2016 num pendrive, e levou-o para casa. Detido, negociou um acordo de delação premiada. Entregou a memória eletrônica, explicando a natureza dos dados.
Novis, o encarregado da logística na Firma, seguiu o exemplo de Dantas e entregou todos os pen drives que guardara durante anos.
Neles identificou as várias contas da Fetranspor reservadas a Cabral. Foram R$ 70 milhões pela “CM”; R$ 31,6 milhões via “Abacate” e R$ 16,5 milhões pela “Verde”, entre outras entregas.
Os primeiros pagamentos, lembrou, ocorreram dentro da Assembleia Legislativa.
Cabral foi deputado estadual por mais de uma década. No dia em que assumiu a presidência da Alerj, em 1995, chamou jornalistas ao seu gabinete e mostrou-lhes o banheiro privativo. Era o local preferido pelos antecessores, contou, porque lá ocorriam as entregas semanais de propinas.
Duas décadas depois se descobre que aquele banheiro foi, também, um marco na carreira política de Sérgio de Oliveira Cabral Santos Filho. Aos 54 anos, o ex-governador do Rio está preso na cadeia pública de Benfica. Adormece em colchões ortopédicos.


quinta-feira, 27 de julho de 2017

A parte que nos cabe

Quem se elegeu vestindo a túnica da ética deveria combater e não aprimorar os esquemas de saque aos cofres públicos

Por Augusto Nunes, 11/07/2017,
 www.veja.com.br


“Parece-me que esses políticos não se sustentam na sociedade com o apoio das pedras, das árvores, do ar, das coisas, em suma, e sim das pessoas – cujo conjunto tem o nome de povo”.
Monteiro Lobato


Texto de Sonia Zaghetto
Esta nossa terra, em que se plantando tudo dá, vem sendo leiloada há tempos. Vendida por muitos dinheiros, traída sem tréguas, saqueada no silêncio das noites. Nada disso começou agora, bem sei, mas hoje as vísceras expostas da Nação traduzem um tempo de monstruosa decadência, em que a corrupção se institucionalizou; entronizada na Praça dos Três Poderes e elevada à categoria de política do Estado.
Homens que desconhecem os limites da decência a negociam às escâncaras, tornando oficial o escambo mais despudorado. Mal respira a pobre pátria. Morre um pouco mais a cada dia. E leva consigo as esperanças de milhões.
Tão clássico quanto a corrupção nacional é o apoio que os corruptos desfrutam desde priscas eras. Do meu arquivo saltam fartos exemplos. Seleciono dois que demonstram como o nosso velho ethos adoecido dá as cartas.

O primeiro tem quase cem anos. Monteiro Lobato, em “Mr. Slang e o Brasil/Problema Vital”, não economiza vinagre ao criticar o governo de Artur Bernardes e a atitude geral dos brasileiros. Suas observações sobre tais temas permanecem dolorosamente atuais. Versam sobre a pesada carga tributária, a imprensa a serviço dos governos, a corrupção generalizada, os abusos de autoridade, os jovens brasileiros que já sonham entrar na vida “aposentados” integrando o serviço público (“monstruoso parasitismo burocrático que aqui rói, como piolheira, o trabalho dos que ainda trabalham”) e a falta de espírito empreendedor.
“O Brasil é a terra onde um parafuso qualquer da máquina governamental, prefeito ou ministro de Estado, tem o direito de ‘ousar tudo’, escudado pela mais completa irresponsabilidade”, diz o velho Lobato, que, de bônus, ainda revela quão antiga e leviana é a nossa forma de escolher quem vai ocupar a cadeira de presidente da República: “Exige-se habilitação para tudo, menos para dirigir o país”.
O segundo exemplo vem do arquivo familiar. Em 7 de março de 1983, meu avô, Roque Pennafort, observador atento da política nacional, resumiu numa carta desalentada as tentativas anteriores de acabar com a praga da corrupção no Brasil: “O fato mais interessante – não fosse tétrico – foi à eleição de 1982, a mais corrompida a que assisti em toda a minha vida. Em 1930 testemunhei uma revolução que, diziam, veio para acabar com todos os tipos de corrupção – inclusive e principalmente a eleitoral. Depois vieram outros golpes que prometiam mudar as diretrizes da vida no País, inclusive o de 1964. Nada mudou quanto à corrupção”.
Trinta e quatro anos depois da carta de meu avô, a velha corrupção e seu cortejo de áulicos continuam a escandalizar os brasileiros. Reagimos esperneando nas redes sociais, consumidos pela desesperança. A cada dia, uma gota de fel: um novo escândalo aqui, uma delação espetacular acolá, um esquema diferente adiante. Tudo regido pela inesgotável criatividade dos gatunos disfarçados de políticos, funcionários públicos e empresários. Há de tudo no cardápio: de náuseas seletivas a desmentidos oficiais desavergonhados, passando por negativas infantis, apelos dramáticos e o conhecidíssimo sofisma.
É evidente a deterioração emocional do País. Nossa autoestima encolhe, os sonhos desvanecem, a esperança vive nocauteada. Vergonha nos traduz. Vergonha, diga-se, não de quem foi logrado e acabou por votar em gente indigna. O que nos constrange é ver os expoentes da indignidade serem reeleitos, apoiados, incensados e idolatrados, mesmo após serem flagrados lambuzando-se nos ilícitos. A responsabilidade por isso é intransferível.
Eis porque a fúria desaba sobre os membros da seita de fanáticos em que se converteu a esquerda brasileira. Incapazes de autocrítica repetem os atos daqueles que tanto criticaram no passado: os seguidores dos velhos coronéis da política, aproveitadores da miséria, cevados por anos com o nosso melhor sangue. Os porcos tornaram-se homens. Ou seria o contrário?
É inegável, ainda, que, na raiz do sentimento de repulsa que os partidos de esquerda têm provocado em significativa parcela da população está a flagrante contradição entre discurso e prática. As alegações de que a corrupção é antiga são verdadeiras, mas convenhamos: quem se elegeu vestindo a túnica da ética deveria combater e não aprimorar os esquemas de saque aos cofres públicos. Reconhecer isso é o mínimo que se espera. Como esse mea culpa não aparece, cresce a reação indignada à elasticidade moral dos que continuam a apoiar corruptos.

Estes comem o fruto amargo que plantaram sob a forma de crise, desemprego e colapso da economia. Mas não o fazem sozinhos. Suas ações obrigam a coletividade a participar do indigesto banquete. Tornam-nos a todos herdeiros compulsórios e comensais do fruto apodrecido. No Brasil em que ovelhas são devotas de lobos, vive-se o pesadelo cotidiano de estar aprisionado às escolhas de um gêmeo siamês a quem já não tolera.
Diante desse quadro, restam dois caminhos. No primeiro, relativamente fácil, continuam a ruir as amizades. Os siameses estrangulam-se mutuamente. É a vitória final do nós contra eles. A alternativa é a união em torno do bem comum. Caminho árduo, porta estreitíssima. Exige maturidade, desapego de ideias arraigadas, altas doses de tolerância. Se bem sucedida, pavimenta a longa estrada da reconciliação nacional, um projeto coletivo no qual a opção pelo País sobrepuja o culto a personalidades políticas. O primeiro de mil passos pode ser dado em 2018.
Essa decisão é a parte que nos cabe.


domingo, 11 de junho de 2017

O real abuso de autoridade



Precisamos impedir que abusadores compulsivos na política se unam para se livrar da lei e frear a Lava Jato 


Por Ruth de Aquino, 31/03/2017,
 www.época.com.br



Você abusou, tirou partido de mim, abusou. Que me perdoem se eu insisto neste tema, tão bem composto pela dupla Antonio Carlos e Jocafi, mas tão vulgarizado em Brasília e nos estados. Não dá para fugir dessa questão, crucial para o futuro. Vocês abusaram, tiraram partido do povo iludido que hoje anda a míngua.  É preciso continuar a passar a limpo a sujeira e impedir que bandidos engravatados se façam de vítimas.

Precisamos impedir como sociedade organizada; que abusadores compulsivos se unam para se livrar da lei. Só assim se fará uma reforma política. Para atrair novas cabeças, é necessário que rolem as cabeças contaminadas pela propina e pelo abuso de poder. Bilhões de reais roubados têm de voltar aos cofres públicos. Quando servidores do estado do Rio de Janeiro recebem 13º atrasado, com dinheiro surrupiado por Sérgio Cabral, a Lava Jato alcança seu objetivo mais nobre. Teve servidor que chorou. Teve servidora que compôs versos. Usaram o dinheiro para quitar dívidas.

Na discussão de quem abusa e quem sofre abuso de autoridade, é sintomático que dois dos principais personagens sejam o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha e o ex-presidente do Senado Renan Calheiros – nossas duas Casas no Congresso. Cunha foi condenado na quinta-feira na Lava Jato a 15 anos e quatro meses de prisão. Renan esperneia para não ter um dia o mesmo destino. Ambos se dizem vítimas de juízes e procuradores, após trair durante anos seus eleitores e suas histórias de vida.

“A responsabilidade de um parlamentar federal é enorme e, por conseguinte, também a sua culpabilidade quando pratica crimes. Não pode haver ofensa mais grave do que a daquele que trai o mandato parlamentar e a sagrada confiança que o povo nele depositou para obter ganho próprio.” É o que diz a sentença do juiz Sergio Moro contra Cunha. Moro é considerado por políticos suspeitos o abusador-mor, o justiceiro.

Cunha foi condenado por lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas. Seu dinheiro na Suíça será confiscado. O ex-todo-poderoso presidente da Câmara responde a mais duas ações criminais e quatro inquéritos. Acusa Moro de parcialidade política e diz ser “o troféu” do juiz. Mesmo em prisão preventiva, Cunha elucubrava ações de “extorsão, ameaça e chantagem” na busca a aliados, segundo a sentença. Falou tão mal dos delatores que, daqui a pouco, não conseguirá, mesmo que queira virar delator. Não restará mais nada nem ninguém a denunciar.

Renan, réu no Supremo Tribunal Federal por desvio de dinheiro, alvo de 11 inquéritos e um dos nomes da “lista de
Janot”, tenta não se tornar Cunha amanhã. É autor do projeto de abuso de autoridade em tramitação no Senado. Sua missão é torpedear a Lava Jato antes de perder a capacidade de se reerguer. A intenção de Renan não é nada republicana. A exemplo de Cunha, Renan apela para a intimidação à Justiça, ao Ministério Público e à Polícia Federal. O propósito é salvar sua pele e a de colegas.

O PT e o PMDB, que se consideram perseguidos pela Lava Jato, não esperavam que o primeiro partido a ser denunciado formalmente pelo Ministério Público Federal fosse o PP (Partido Progressista), de centro-direita. Na ação de improbidade aberta na quinta-feira, dez políticos do PP foram acusados de receber de R$ 30 mil a R$ 300 mil por mês por mais de sete anos. Tudo vindo de contratos da Petrobras, a mãe da propinagem. A Justiça quer a devolução de R$ 2,3 bilhões que teriam sido roubados pelos “progressistas”. A resposta do PP é padrão: “Todas as doações foram legais e devidamente declaradas e aprovadas”. É um escárnio.

A guerra tem de ser suprapartidária. O governador do Pará, Simão Jatene, do PSDB, foi cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral por abuso de poder político. O governador de Goiás, Marconi Perillo, também do PSDB, foi denunciado por corrupção passiva pela Procuradoria-Geral da República. Teria recebido a “mixaria” de R$ 90 mil de propina da construtora Delta. Hoje só é surpresa quando o valor fica abaixo de milhões.

No Rio de Janeiro, foram presos cinco dos sete conselheiros do Tribunal de Contas do Estado, delatados por Jonas Lopes, ex-presidente do TCE. O papel dos conselheiros é analisar as contas públicas. Esses analisavam Sérgio Cabral. No TCE, não se entra por mérito. Os conselheiros são nomeados pelos mesmos políticos que devem ser fiscalizados e os cargos são vitalícios.

O “dono do Rio” e presidente da Assembléia Legislativa, Jorge Picciani, do PMDB, foi levado à força para depor, acusado de organizar os pagamentos ilícitos aos conselheiros. O “padrinho” Picciani fez um discurso conclamando sua inocência. Não convenceu. Vocês abusaram. Tiraram partido do povo. Abusaram.

sábado, 10 de junho de 2017

A gargalhada do coveiro de provas vivas



Gilmar Mendes faria um favor a si mesmo e, sobretudo, ao país se tratasse de marcar encontros com princípios abandonados em algum lugar do passado

Por Augusto Nunes, 10/06/2017,
 www.veja.com.br

 “Recuso o papel de coveiro de prova viva”, resumiu o ministro Herman Benjamin no fecho do monumento à verdade que ergueu em meio às ruínas da Justiça. “Posso até participar do velório, mas não carrego o caixão”, completou o relator do julgamento da chapa Dilma - Temer no Tribunal Superior Eleitoral.

Com o apoio de dois ministros do Supremo Tribunal Federal, indiferente a provocações, apartes impertinentes, risos debochados e sussurros cafajestes, Benjamin acabara de devassar com comovente altivez a catacumba repleta de canalhices protagonizadas pela dupla que fez o diabo para ganhar a eleição de 2014.

Ele soube desde a primeira linha da surdez obscena do trio de súditos afinado com o solista no comando. Mas entendeu que precisava mostrar a milhões de brasileiros o que seria enterrado nesta sexta-feira. E deixar claro que ainda há juízes mesmo em tribunais infestados de espertalhões e sabujos trajando togas puídas nos fundilhos.

O que falta é mais gente decidida a avisar nas ruas, aos berros, que o Brasil decente não se deixará intimidar pelos poderosos patifes que teimam em obstruir os caminhos da Lava Jato. Refiro-me à verdadeira Lava Jato, representada por Sérgio Moro, não à caricatura parida em Brasília por Rodrigo Janot.

A gargalhada de Gilmar Mendes na primeira página da Folha deste sábado comunica que o nada santo padroeiro de amigos em apuros continuará tentando marcar encontros com o que chama de “prisões alongadas ocorridas em Curitiba”. Faria um favor a si mesmo e, sobretudo, ao país se marcasse encontros com princípios e valores abandonados em algum lugar do passado. Quase todos podem ser localizados no histórico voto de Herman Benjamin.

Não será difícil ao atarefado Gilmar Mendes achar tempo para a tentativa de reencontrar a Lei, a Verdade e a Justiça. Basta suspender por algumas semanas encontros com bandidos de estimação e com agentes funerários especializados no sepultamento de provas do crime.


Comentários


Marco Peres
 
Será que esse comentário chega até ele?

Mauro Pereira
 
Caro Augusto Nunes, Gilmar Mendes jogou a última pá de excremento no que restava de confiabilidade na Justiça brasileira. Brasil virou terra ninguém, digna representante maior das republiquetas terceiro-mundistas que devastam a América Latrina. Peço encarecidamente àquele que sair por último; pelo futuro deste pobre país rico, acenda a luz

Fabinho Cabelinho
 
Até que ponto o ministro chegou gente que isso, é vergonhoso, péssimo ministro advogado dos corruptos esse é o verdadeiro emprego do Gilmar, realmente ele foi longe demais com esse julgamento arrumado que vergonha

Gilberto Mendes
 
O JUDICIÁRIO BRASILEIRO está falido há muito tempo, EXCEÇÃO é Moro, o resto, é resto. É por isso que o Brasil nunca ALCANÇA o pleno desenvolvimento. Estamos eternamente em CRISE.