Total de visualizações de página

sábado, 21 de outubro de 2017

'Não culpem a globalização'

Historiador sueco diz que a abertura dos mercados favoreceu a redução da pobreza e afirma que populistas como Trump usam o comércio e a imigração como bodes expiatórios

Por Giuliano Guandalini, 04/08/2017,
 www.veja.com.br


Texto de Johan Norberg

Sorria, você vive no melhor dos tempos. Nunca na história a humanidade foi tão próspera, tão longeva, tão sadia e teve qualidade de vida tão elevada. Em 1900, a expectativa de vida média ao nascer era de pouco mais de 30 anos. Hoje, passa de 70. O contingente de pessoas alfabetizadas era de 20%. Hoje, 85%. A pobreza e a violência estão em declínio. Em 25 anos após a queda do Muro de Berlim, a renda per capita mundial cresceu tanto quanto nos 25 000 anos precedentes, graças ao avanço pelo mundo da democracia e do comércio. Para o historiador sueco Johan Norberg, as más notícias são exceções diante de todo esse progresso. Progresso, a propósito, é o título de seu recente – e elogiado – livro, lançado no ano passado e cuja versão brasileira acaba de ser lançada no Brasil pela editora Record. De sua casa, em Estocolmo, Norberg conversou com VEJA pelo Skype.

Com a ascensão do populismo na Europa e nos Estados Unidos, muito tem se falado sobre a necessidade de socializar os benefícios da globalização. Como defensor da abertura dos mercados mundiais, qual a sua avaliação?

Quando observamos os diferentes indicadores sociais e econômicos, nunca vimos anteriormente um período de avanço similar ao dos últimos 25 anos. A cada segundo, três pessoas saem da pobreza extrema. Então, não tenho dúvidas de que a globalização está funcionando muito bem. Obviamente sempre haverá aqueles que não se beneficiam da globalização. Nada na vida funciona bem para todos, o tempo todo. Por isso, há forças crescentes contrárias à globalização. São forças tanto de direita quanto de esquerda.

Houve um empobrecimento relativo em regiões decadentes do antigo cinturão industrial americano. Essas pessoas, que foram decisivas para vitória de Donald Trump, podem ser consideradas perdedores da globalização?

É verdade que essas pessoas ficaram para trás, mas não colocaria a culpa na globalização. O retrocesso teve início bem antes. Desde os anos 1960, os custos trabalhistas das empresas nessas áreas subiram bastante, sem que houvesse um ganho proporcional em produtividade. Além disso, em todo o mundo a indústria perdeu empregos. É culpa das máquinas, principalmente. Um estudo aponta que 88% da redução nos empregos industriais nos Estados Unidos decorreram da automação. O comércio internacional, pelo menos, contribuiu para suavizar o empobrecimento desses operários, ao reduzir o preço das mercadorias.

O governo americano deveria ter ajudada a preparar essas pessoas para a transformação econômica, ou o fenômeno era difícil de detectar?

O setor público, sem dúvida, falhou. Por muito tempo, o que o governo procurou fazer, de fato, foi retirar essas pessoas da força de trabalho, concedendo programas sociais e aposentadorias antecipadas. Muito foi gasto com benefícios, e pouco em educação e treinamento. A ajuda serviu para que essas famílias tivessem suas necessidades básicas atendidas, mas não foi capaz de lhes elevar a autoestima ou dar-lhes novas habilidades técnicas.

"A cada segundo, três pessoas saem da pobreza. Não tenho dúvidas de que a globalização está funcionando muito bem. Obviamente, sempre haverá aqueles que não se beneficiam"

Qual a sua impressão do novo presidente americano?

Trump parece que vai trabalhar com todas as suas forças para transformar a globalização e o comércio internacional em bodes expiatórios. Trump tem sido habilidoso em levar as pessoas a acreditar que as dificuldades decorrem da imigração ou das importações. Decisões como a de sair do Tratado do Pacífico ou erguer o muro com o México são péssimas, sobretudo para os próprios americanos.

O senhor prevê que Trump cumprirá suas promessas ou será enquadrado pelas instituições americanas?

Existe uma boa chance, espero, de o Congresso impor limites às suas ambições. Trump pode ser forçado a se contentar com algumas vitórias simbólicas, mas não a ponto de arruinar o comércio internacional. Sempre haverá, contudo, o risco de um movimento similar ao dos anos 1930, depois do crash da Bolsa de Nova York em 1929. Os Estados Unidos se fecharam para o mundo, e a retórica naqueles dias não era muito diferente da usada por Trump. O protecionismo e as guerras comercias contribuíram para aprofundar a Grande Depressão. Políticos como Trump não são bons em governar, mas são exímios em apontar bodes expiatórios.

Em seu livro Progresso, o senhor lista uma série de evidências de como o mundo está hoje em uma situação mais confortável do que no passado. Somos mais livres, mais ricos, mais educados, mais saudáveis. Não há aí um eco do professor Pangloss, o otimista inveterado de Voltaire?

Meu otimismo é o oposto de Pangloss. Ele diz que este é o melhor dos mundos, não pode ser melhor, mesmo se acontece uma tragédia como o terremoto que destruiu Lisboa. Para mim, ao contrário, podemos fazer muito para melhorar o mundo, até mesmo, por exemplo, evitar que pessoas continuem morrendo desnecessariamente por causa de terremotos.

Nos últimos anos, países como o Brasil e a Grécia viveram retrocesso. O ritmo de progresso mundial está fadado a desacelerar?

Há problemas no sul da Europa. Precisamos avaliar, contudo, os erros cometidos pelos países da região. Com o euro, eles tiveram acesso a recursos abundantes, a um custo baixo. Em vez de investir na produtividade, seguir políticas para aumentar a competitividade e reduzir os obstáculos ao empreendedorismo, aumentaram o seu nível de consumo e os gastos públicos. Mas, uma vez superada a crise, eles poderão retomar a trajetória de desenvolvimento. Não sou expert em Brasil, mas acredito que algo semelhante tenha acontecido aí. A bonança dos recursos naturais poderia ter sido investida de maneira mais inteligente, na diversificação da economia.

"Bill Gates é provavelmente 10 milhões de vezes mais rico do que eu, mas não acredito que a sua vida seja 10 milhões de vezes melhor do que a minha"

Até pouco tempo, a visão predominante era de que os governos não deveriam se preocupar com a desigualdade. O fundamental era incentivar o crescimento, e as forças de mercado cuidariam de prover oportunidade a todos. Hoje, o aumento da desigualdade ganhou o centro das atenções. O que os governos devem fazer?

Não creio que os governos devam ser obcecados com esse assunto. Em nenhum lugar do mundo a desigualdade cresceu tanto quanto na China, e isso foi ótimo. Antes, todos eram igualmente pobres. Há trinta anos, 90% dos chineses viviam na miséria. Hoje, apenas 10%. O progresso nem sempre ocorre ao mesmo tempo, no mesmo ritmo e em todos os lugares. O foco deveria ser sempre ampliar as oportunidades para todos e em reduzir a pobreza. Conforme as novas tecnologias se disseminam, mas acessíveis elas se tornaram, o número de pessoas capacitadas cresce, e tudo isso contribui para a redução na desigualdade. Bill Gates é provavelmente 10 milhões de vezes mais rico do que eu, mas não acredito que a sua vida seja 10 milhões de vezes melhor do que a minha.Empreendedores como Bill Gates e Steve Jobs fazem um tremendo serviço para reduzir a desigualdade, ao tornar a tecnologia acessível a um grande número de pessoas.

O economista italiano Luigi Zingales faz uma distinção entre capitalismo pró-negócios e capitalismo pró-mercado. Segundo ele, grandes corporações, em conluio com políticos, assumem o discurso de defesa da globalização em prol de seus negócios, e não dos consumidores e do mercado como um todo. Concorda?

Desse ponto de vista, de fato, a desigualdade pode ser algo negativo. Pela força do poder econômico, as corporações podem influenciar a agenda política. Foi o que aconteceu na crise financeira. Os executivos de bancos e grandes empresas foram salvos com dinheiro dos contribuintes. Quando empresas ineficientes são protegidas, a produtividade não avança. Novos empreendedores, mais competitivos, não conseguem ter acesso ao mercado.

Os países escandinavos, particularmente a Suécia, costumam ser apontados como exemplos de justiça social. Acredita que outros países devam seguir o exemplo?

É sempre difícil replicar modelos, principalmente quando não existem as pré-condições para tanto. O modelo da Suécia, de fato, é muito bom, mas deve-se entender por que ele funciona. A Suécia é um país pequeno, onde as pessoas confiam umas nas outras e existe ampla confiança na integridade do governo. Temos uma ética do trabalho, a qual alguns atribuem ao protestantismo luterano. Ainda que existam muitos benefícios sociais, as pessoas querem ser produtivas, e não viver sob o cobertor do governo. A pressão da família e dos amigos é severa. Além disso, ao contrário do que muitos imaginam, a Suécia tem uma das economias mais abertas do planeta. Existe aqui mais competição e integração ao comércio internacional do que nos Estados Unidos. Quando pessoas como Bernie Sanders (pré-candidato democrata à presidência dos Estados Unidos) afirmam que desejam imitar o modelo sueco para os Estados Unidos, com mais gastos sociais, mas restringindo o comércio e a competição, posso dizer que seria um desastre econômico.

Em 1970, o economista americano Milton Friedman escreveu um artigo, no jornal The New York Times, em que afirmava que “a responsabilidade social de uma empresa deve ser aumentar os lucros”, e que os programas de responsabilidade social serviam apenas para “enfeitar a vitrine”. O papel da empresa ainda é apenas ter lucro?

Não há dúvida que houve uma grande mudança. Ainda que muitas vezes essas iniciativas realmente não passem de enfeite de vitrine, as empresas sentem a necessidade de atuar em áreas em que os governos muitas vezes falham, como no meio ambiente e na educação. Ao mesmo tempo, é importante para a motivação dos funcionários e das pessoas que se relacionam com aquela empresa não serem máquinas de gerar lucros, e sim estarem envolvidas em algo que contribua para a comunidade. Não creio, de qualquer maneira, que sejam objetivos contraditórios. Afinal, usar os recursos da maneira mais eficiente possível tem tudo a ver com lucro.


Conteúdo AMARELAS.com

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

‘Estávamos em êxtase’, diz Adriana Ancelmo sobre corrupção

O êxtase do casal acabou 

Da Redação, 24/06/2017,
www.veja.com.br


Numa conversa recente com Adriana Ancelmo, um advogado carioca reuniu coragem e perguntou por que razão ela e o marido, Sérgio Cabral, se envolveram em tantos e variados esquemas de corrupção. Pois a mulher do ex-governador do Rio não se esquivou da indagação: “Estávamos em êxtase”.
No bate-papo, ela também deu detalhes sobre a bajulação dos amigos. “Nos nossos aniversários, era tanta gente, tantos presentes, que distribuíamos entre os empregados do nosso prédio sem nem abrir os pacotes”, disse. O êxtase, do casal e dos porteiros, acabou.

Comentários

Nathan Khornnes

Sr. Ítalo, o senhor quase me convenceu. Mas lembremos que o Juiz Moro está apenas exercendo suas prerrogativas conforme a lei. Ele não pode extrapolar o que manda o arcaico Código Penal. Mas se o povo se mantiver unido, nós jamais seremos vencidos.

Luiz salgado

Estavam em êxtase, agora vocês dois vão gozar é na cadeia, cambada de ladrão.

Luiz Chevelle 

Esse cara, com a grana que roubou, podia ter arrumado uma mulher bonita no lugar dessa baranga.

Zeca

Pois é nós também estamos extasiados …
Vagabunda

Gilson

O BANHO FRIO NAS CADEIAS CARIOCAS VAI ACABAR COM ESSE ÊXTASE — O QUE OCORREU É QUE A IMPRENSA CARIOCA MOSTROU TODA SUA SORDIDEZ FINGINDO QUE NÃO SABIA QUE SERGIO CABRAL HAVIA MONTADO A MAIOR FACÇÃO CRIMINOSA DO BRASIL — PORQUE O MPRJ, QUE TEM OBRIGAÇÃO DE PROTEGER O ESTADO DE BANDIDOS EM 20 ANOS NÃO SABIA QUE SERGINHO ESTAVA ROUBANDO? COMO UM ASSALARIADO COMO SERGINHO PODIA ADQUIRIR TANTOS BENS E A IMPRENSA E O MPRJ NÃO SABER NEM DESCONFIAR DE NADA? COMO UM ASSALARIADO COM 20 MIL REAIS MENSAL PODE COMPRAR APARTAMENTO DE 20 MILHÕES NO LEBLON E NABABESCA MANSÃO NA COSTA VERDE FLUMINENSE? ENFIM, PORQUE DEIXARAM SERGINHO SE LAMBUZAR DE TANTO ROUBAR? EM 1998 MARCELO ALENCAR DEU ENTREVISTA A IMPRENSA DIZENDO QUE SERGIO CABRAL ERA LADRÃO E ESTAVA ROUBANDO A VONTADE — PORQUE NINGUÉM INVESTIGOU? PORQUE NINGUÉM INVESTIGOU COMO SERGINHO COMPROU APARTAMENTO NO LEBLON E MANSÃO EM MANGARATIBA? É ISSO QUE O JUIZ MARCELO BRETAS TEM QUE BOTAR NA MESA DAS DELAÇÕES PREMIADAS DESSE CRIMINOSO PATOLÓGICO — PORQUE, ALIÁS, COMO ELE ROUBOU TANTO IMPUNEMENTE DURANTE 20 ANOS? PORQUE PERMITIRAM?

Napoleão Gomes,

Pólvora e chumbo na boca trazem de volta do êxtase á realidade.

Antônio Renovável

ÊXTASE!!! Significa roubar sem limites, e a justiça ainda solta essa meliante, delinquente.

Paulo Vielmo


Rio de Janeiro, um lugar tão lindo, mas completamente infestado por ladrões e bandidos. Que pena! Creio que a esta altura dos acontecimentos o casal já tenha saído do êxtase. Se tivessem um mínimo de caráter não tinham se aproveitado do cargo que o povo lhes outorgou. O caminho de volta começa com a devolução do produto roubado, que em grande parte já foi dilapidado. Quem não respeita os limites da decência e moralidade, terá como punição a privação da liberdade. Vocês e muitos outros ladrões, por entrarem em êxtase na volúpia da ganância e luxúria, estragaram suas vidas. Valeu a pena???

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Cobras criadas

Dilma Rousseff deve explicações por ter nomeado Aldemir Bendine na Petrobras, sobre quem pairavam várias polêmicas de ordem ética

Por Augusto Nunes, 28/07/2017,
 www.veja.com.br

Eliane Cantanhêde publicado no Estadão

A então presidente Dilma Rousseff descumpriu uma regra básica do poder ao transferir o presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, para a Petrobras num momento muito delicado para o País e para a estatal. Essa regra é que “à mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta”. Bendine era considerado competente na gestão do BB, mas pairavam sobre ele várias polêmicas de ordem ética.

Como presidente do BB, ele foi pego pela Receita Federal por “evolução atípica” de patrimônio, por valores não justificados e pela compra de um imóvel com dinheiro vivo. Sem ter o que responder, alegou que guardava R$ 280 mil em casa. Soou excêntrico o presidente do maior banco público guardar pilhas de notas de reais debaixo do colchão e comprar apartamentos em “cash”.

Será que Bendine, funcionário de carreira de uma das instituições mais sólidas do Brasil, não acredita no sistema financeiro? Vê com desconfiança o próprio Banco do Brasil? Ou, como a Receita suspeitava, ele não tinha como justificar a origem do dinheiro e não podia depositá-lo? A Lava Jato está respondendo a essas dúvidas agora.

Além disso, Bendine tinha passado pelo vexame de liberar um empréstimo camarada, de R$ 2,7 milhões, para a socialite Val Marchiori, que tinha um probleminha: estava inadimplente com o banco e não poderia receber empréstimos. Mas ela guardava um trunfo: era amigona de Bendine, com quem até viajou para o exterior.

Numa outra frente, Bendine foi processado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por suspeita de “violação de silêncio” sobre uma oferta pública inicial de ações da BB Seguridade. No início deste ano, ele pagou multa e ficou por isso mesmo, mas as multas e os jeitinhos não resolvem uma questão básica: um cidadão com tantas situações “atípicas” poderia assumir a presidência da Petrobras?

E ele não assumiu num momento qualquer, de normalidade no País e na própria petroleira. Assumiu justamente com o País de pernas para o ar e a Petrobras estraçalhada desde o governo Lula e com operações estranhíssimas também na era Dilma (como Pasadena), e já alvo da Lava Jato, que completava então um ano.

Assim como a grande amizade com Bendine justificou a quebra de regras e um empréstimo milionário para Val Marchiori, a proximidade de Bendine com Lula e com o PT o catapultou à presidência do maior banco público, a ótimas relações com ministros e assessores-chave de Lula e Dilma e depois à maior e mais simbólica companhia brasileira.

Foi por essas e outras que, apesar de o próprio BB ainda passar razoavelmente ileso pelas investigações, nada mais escapou da sanha da corrupção ou da má-fé: Petrobras, Caixa Econômica Federal, Correios, Furnas, administração direta, crédito consignado dos aposentados, sistema bancário, agências reguladoras…

A teia ficou tão imensa, tão diversificada – e tão fácil – que Aldemir Bendine não se intimidou com a Lava Jato, a maior operação de combate à corrupção do mundo, nem com a crescente atuação e competência do MP, da PF e da Justiça e é acusado não apenas de cometer crimes, mas de ter uma ousadia espantosa. Com todos os holofotes na Odebrecht e na Petrobras, lá foi ele pedir propina justamente para a Odebrecht, e para manipular decisões da Petrobras. Até na véspera da posse!

Parece doença, mas não é. É a sensação de poder, de costas quentes e de impunidade que contamina o Brasil, onde a mulher de César não precisa ser honesta nem parecer ser honesta. Tem só de ser cobra criada, com as amizades certas, nas horas certas, para se infiltrar nos palácios, ministérios, órgãos e empresas públicas. Depois, o céu é o limite.


domingo, 8 de outubro de 2017

Uma república macunaímica

Por Marco Antônio Villa,30/06/2017,
 www.istoé.com.br



Não custa repetir: o impeachment de Dilma Rousseff não encerrou a crise política. Pelo contrário, simplesmente destampou a panela de pressão da crise sistêmica da democracia brasileira. As contradições políticas se aprofundaram de tal forma que a solução, relativamente tranquila, obtida após o processo de impeachment de Fernando Collor – que não foi concluído, registre-se –, não pode se repetir. 2017 não é 1992 especialmente porque agora o País passa por uma crise sistêmica, que envolve os três poderes da República. Vivemos, portanto, não uma crise política, como outras ao longo da história nacional, mas o colapso do Estado democrático de Direito.

Os três poderes estão carcomidos. As instituições não conseguem dar conta da complexidade da conjuntura. A sociedade civil a todo momento manifesta sua profunda insatisfação. Quer um Estado que funcione, que respeite a coisa pública, que seja ágil, que valorize os valores republicanos.
A sociedade civil apresenta um ar de enfado, até de apatia. Imaginava também que após o impeachment o País caminhasse para o pleno funcionamento da democracia, após a maior mobilização popular da nossa história. Acabou acreditando que as mazelas petistas e seu projeto criminoso de poder seriam extintos após a saída de Dilma. Ledo engano. Por um lado devido a permanência na estrutura do Estado dos representantes do PT e, de outro, porque não houve qualquer mudança na forma de ação da máquina governamental.

A tensão política se agravou ainda mais desde a segunda quinzena de maio. A crise sistêmica se revelou sem qualquer disfarce. Houve em algum momento da história do Brasil uma troca de acusações entre o procurador-geral da República e o Presidente da República como vimos na última semana? E um presidente, no exercício do cargo, ser denunciado por corrupção? E um presidente réu? É uma possibilidade na democracia macunaímica que vivemos.

Estamos chegando a um ponto de absoluta desmoralização das instituições, da elite política, dos padrões morais e éticos, e, pior, sem encontrar um caminho que permita sair dessa conjuntura. Não há, ao menos no momento, um caminho e nem a forma de como percorrê-lo. E onde estão os condutores? E as ideias? Algum projeto para o País? O que há então? Nada. Resta o vazio e a desesperança.


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Banânia, a Corte e os Burocratas

Por Ricardo Amorim, 29/09/2017,
 www.istoé.com.br


Era uma vez um reino chamado Banânia. Seu governo gastava sempre mais do que arrecadava.

A corte e a corrupção consumiam todos os recursos. Porém, os burocratas locais eram muito criativos. Sempre encontravam um jeitinho.

Banânia era conhecida por seus sapatos. Suas sapatarias davam inveja aos reinos vizinhos. Entre todas, Sapatótimo se destacava. Tinha três sapateiros, os melhores do mundo.

Um dia, no auge da corrupção e da gastança com a corte, o governo ficou sem dinheiro.

O Rei recorreu aos burocratas.

Logo, eles acharam a solução: um carimbo amarelo seria obrigatório em todos os sapatos produzidos no reino. Qualquer par sem o selo de Banânia condenaria seu produtor a uma pesada multa. Genial! O Rei contratou vários fiscais, aumentando os gastos do reino, mas quem se importava com isso? A arrecadação cresceria, garantiam os magos.

Os sapateiros se organizaram.

Em Sapatótimo, os três sapateiros decidiram que, a partir dali, um produziria, outro carimbaria e o terceiro conferiria as carimbadas. Antes, eles faziam 300 sapatos por mês. Com só um sapateiro produzindo, a produção mensal caiu para 100 sapatos. Para compensar, aumentaram o preço dos sapatos.

A maioria das sapatarias fez a mesma coisa. A produção de Banânia caiu a pouco mais de um terço de antes. Começaram a faltar sapatos.

O reino, que antes exportava, teve de importar sapatos piores e mais caros. Com o preço alto, muita gente não pode mais comprá-los. Passaram a andar descalços. Tudo bem, “quem não tem sapatos, que use sandálias” disse a Rainha.

A maioria dos sapateiros agora produzia e vendia menos. Ficaram mais pobres. Seus filhos não queriam seguir seus passos. O sonho agora era tornar-se Fiscal do Carimbo Amarelo, e ser amigo do Rei.

Ao contrário do imaginado, a arrecadação cresceu pouco. Depois de pagar os salários dos fiscais, não sobrou muito. Nem todos cumpriam a lei, mas os sapateiros que não a cumpriam, ao invés de pagarem multas, ficavam cada vez mais ricos. Só os próprios fiscais e a corte eram mais ricos do que eles. Um mistério eram as mansões e os bunkers dos fiscais. Como conseguiram comprá-las? Para que serviam? Havia quem dissesse — blasfêmia da imprensa — que eram para guardar malas e caixas de dinheiro.


Pressionado pela falta de arrecadação e pela corte, o Rei chamou novamente os burocratas. Eles não decepcionaram. Além do carimbo amarelo, a partir de agora, todos os sapatos de Banânia terão também um carimbo vermelho. Novos fiscais foram contratados, a maioria das famílias do Rei, da corte, dos burocratas…

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Em Brasília, 25.000 protestam contra Dilma, Lula e Renan

Ao estender a mão para a presidente, peemedebista entrou na mira dos manifestantes. Ato na capital federal igualou o público de abril

Por Marcela Mattos e Laryssa Borges,
 de Brasília, 16/08/2015, www.veja.com.br


Cerca de 25.000 pessoas, conforme estimativa da Polícia Militar protestaram neste domingo na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, contra o governo da presidente Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores. Depois de estender a mão ao governo na semana passada, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), entrou na mira dos manifestantes, que defenderam a derrubada de "todos que se recusam a combater o PT". Já o ex-presidente Lula foi "homenageado" com um boneco de 12 metros de altura vestido de presidiário. Os manifestantes pediram a prisão do petista.

Sem nenhum incidente registrado pela PM, os manifestantes iniciaram a concentração por volta das 9h30 em frente ao Museu Nacional e marcharam em direção ao Congresso pedindo o afastamento da presidente Dilma. O ato foi encerrado por volta das 13 horas.

Ao longo do percurso, vários jingles foram entoados, entre eles "Olê, olê, vamos pra rua para derrubar o PT" e o hit "Saudação à mandioca", uma analogia a um dos mais notórios tropeços retóricos protagonizados por Dilma, ao saudar a mandioca e o milho no lançamento dos Primeiros Jogos Mundiais dos Povos Indígenas.

Os gritos pelo fim do atual governo, motivados principalmente pelo escândalo bilionário de corrupção na Petrobras, foram revezados com aplausos ao juiz federal Sérgio Moro, que conduz as investigações do esquema, à oposição e à democracia. Em frente ao Congresso Nacional, os organizadores dos protestos, entre eles o grupo Vem pra Rua, leram um manifesto direcionado aos parlamentares, ministros do Tribunal de Contas da União (TCU), ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e à presidente Dilma. O texto destaca o apoio às ações da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça e pede aos congressistas "coragem" para acatarem os pedidos de impeachment. O documento também faz um apelo para que o TCU, ao julgar as contas de Dilma, "não decepcione a nação".

O movimento pacífico reuniu um público diverso, formado por familiares, estudantes e idosos. Até mesmo aqueles que trabalharam durante o evento pediram o afastamento de Dilma. O vendedor de bebidas Henrique Silva, 24 anos, anunciava a venda de água enquanto pedia o fim do governo petista. "Todo mundo vê o que a Dilma está fazendo. Ela está roubando e tirando do povo, que está passando sufoco", disse. O arquiteto Antônio Asteca, 68, esteve na Esplanada em 2005, na esteira do escândalo do mensalão, pedindo o impeachment de Lula. Dez anos depois, volta às ruas com a mesma causa: "Estou aqui de novo protestando contra a corrupção do PT. Nada mudou", afirmou.

Apesar de o governo ter previsto uma baixa na quantidade de participantes na terceira manifestação do ano, a capital federal repetiu a marca de abril, quando, pela primeira vez, os movimentos passaram a defender o impeachment de Dilma. Os organizadores comemoraram a adesão e, ironizando a confusa explicação da presidente ao tratar sobre os números do Pronatec Aprendiz, disseram que, em setembro, vão dobrar a meta.

Governo - Desde o início da manhã, a presidente Dilma recebe relatos do andamento das manifestações em todo o país. Os boletins ficam a cargo do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Uma reunião entre a petista e a coordenação política foi marcada para as 17 horas, no Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência.


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Eles não têm vergonha na cara

Vergonha é uma das palavras mais pronunciadas no Brasil. Não é por excesso. É por falta

Por Augusto Nunes, 25/06/2017,
www.veja.com.br

DE ONDE VÊM AS PALAVRAS
Texto de Deonísio da Silva
A Constituição do Brasil poderia ter apenas dois artigos: “Art. 1º Todo brasileiro é obrigado a ter vergonha na cara. Art. 2º Revogam-se as disposições em contrário”.
Este modelo de Constituição foi proposto pelo historiador Capistrano de Abreu, professor do Colégio Pedro II, no Rio.
Vergonha veio do Latim verecundia, palavra composta dos étimos vereri, ter medo respeitoso, presente também em reverência, reverendo, reverendíssimo etc. E cundia, abundância, indica que este medo respeitoso é muito grande. Mais do que medo, é temor, pois não há lei que pegue sem temor de que à transgressão segue a punição, o castigo. Dante conseguiu mais católicos com o medo do Inferno como descrito na Divina Comédia do que os padres com seus sermões! E o castigo deve vir rápido. “O castigo vem a cavalo” é outro de nossos ditados. Vem a cavalo porque o cavalo foi o meio de transporte mais rápido até o trem, inventado apenas no século XIX!

Vergonha é uma das palavras mais pronunciadas no Brasil. Não é por excesso. É por falta. Será que somos um povo sem-vergonha? Muitos autores atestam que o povo tem muita vergonha, mas nossa classe dirigente tem pouca ou nenhuma.
Há controvérsias, como sempre. A falta de vergonha não é exclusividade de nenhum dos três poderes. Embora seja costume nacional atribui-la apenas aos políticos, ninguém pode negar que o brasileiro adora uma sem-vergonhice.
Todo sem-vergonha teve muitos que votaram nele para que fosse eleito! E eleito quer dizer escolhido! Quem escolheu o sem-vergonha, é sem-vergonha também ou foi enganado? Por isso, é importante o eleitor saber se está bem representado, se soube escolher. Porque depois não adianta se queixar! Nem do vice! Pois no Brasil, desde Floriano Peixoto, vice assume! José Sarney assumiu, Itamar assumiu e Michel Temer assumiu! Três vices assumiram desde 1985. De dez em dez anos, em média, no Brasil um vice assume!
Entretanto, uma das mais severas admoestações feitas a nós, brasileiros, desde a infância, proferidas por pais, irmãos mais velhos, avós, outros parentes, professores e amigos, está contida numa pergunta singela: não tem vergonha na cara, não?
Ninguém tipificava o crime ou conferia a lei ou o artigo onde o sem-vergonha se encalacrara. O infeliz reconhecia a transgressão, tão logo fosse admoestado e procurava emendar-se. Hoje, ele recorre!
O bordão “é uma vergonha” tornou-se ainda mais popular depois de tomado como fecho-padrão pelo jornalista Boris Casoy em seus comentários na apresentação de telejornal.
Mas por que “vergonha na cara?”. Aí é que está. Ditados muito antigos dão conta de que facada, tiro, porrada e bomba são menos graves do que um tapa na cara. O tapa (no Sul é masculino) e a tapa (no Norte é feminino) são humilhantes em qualquer estado brasileiro.
O soco, murro de mão fechada, não é tão humilhante. Olho roxo pode ser sinal de valentia. Nem o famoso pontapé na bunda é mais humilhante do que receber um tapa na cara. Capistrano de Abreu observa que, de acordo com as crenças populares, “Nosso Senhor tudo sofreu, mas não teve pontapés” e que “os escravos reclamavam” deste castigo, pois “pontapé é pra cachorro”.
O problema está na cara! César, quando em guerra civil contra Pompeu, recomendou a seus soldados, quase todos veteranos, que procurassem feri-los no rosto (Miles, faciem feri!). Vaidosos de sua juventude e beleza, os recrutas de Pompeu debandariam como, de fato muitos deles o fizeram. Morrer em combate, tudo bem! Mas voltar com o rosto sangrando por ter apanhado na cara, não!

Nem faltou a justificativa bíblica de que Deus fez o Homem à sua imagem e semelhança. As cortes católicas trouxeram para o Brasil o conceito de que a cara da pessoa é sagrada.

Em suma, está na cara que ter vergonha na cara é importante sob qualquer ponto de vista. E é indispensável que os brasileiros que perderam a vergonha – eis aí outra expressão muito interessante – voltem a tê-la. E voltem a tê-la na cara!