Por
Augusto Nunes, 04/07/2013, www.veja.com.br.
Texto de Antonio Vieira
Maria Antonieta ─ a decapitada ─
se abespinhou com o estranho pedido do populacho faminto: “Ora bolas, se não
tem pão, comam brioches”, disse ela com soberba, mas com sabedoria. Os mal
agradecidos com tão lúcido conselho, no entanto, reagiram com profundo
ressentimento e, envenenados pela raiva, levaram a madame à guilhotina. Gente
mais sábia teria acatado a recomendação; brioches são muito mais saborosos que
o pão imemorial dos ancestrais.
Este exemplo clássico, provindo
dos tempos conturbados da Revolução Francesa, mostra que a plebe rude costuma
não respeitar devidamente os mandarins governantes. A menos que ela se
transforme em um igual a eles. Na versão brasileira talvez fosse melhor dizer malandrins,
em vez de mandarins (“os que mandam”), palavra derivada do castiço verbo
português mandar, a se crer no relato de Eça de Queirós, em seu delicioso
romance homônimo.
Mandarins têm um quê de
ritualístico nos gestos e atos. É alguma coisa de intangível, assimilada ao
longo de décadas de aprimorado treinamento. Ninguém nasce mandarim. Entretanto,
é possível aprender a ser. Não bastam os sinais exteriores que revestem o
cargo; eles devem guardar correspondência com a alma, com o sentimento de mundo
do personagem. Uma besta de carga, mesmo que revestida de ouro e sedas
continuará sendo uma besta com seus zurros, coices e mordidas nos incautos (há
exemplares que chegam a dar pontapés, numa incrível demonstração de mau gênio
das referidas alimárias).
Enquanto escrevo observo ali, no
canto à direita da página, a imagem de Luiz Inácio fazendo careta, encapuzado
com aquele esquisito barrete vermelho cheio de franjas. Malandro velho, ele tem
consciência, no fundo, no fundo, de que a toga rubra cobre um corpo e espírito
pútridos. O miolo da criatura ─ ele sabe, tem consciência de si ─ é postiço.
Luiz Inácio é um farsante e um predador, também nós sabemos, que não tem a
embocadura para ser mandarim. Falta-lhe a finesse necessária.
O deputado Henrique Alves, ao contrário,
vestido no conforme dos costumes, transitaria com naturalidade por entre os
rapapés cerimoniosos de uma velha corte chinesa se, acaso, fosse para lá
enviado numa máquina do tempo. Outros mais, similares ao parlamentar potiguar,
preenchem da mesma forma os requisitos do mandarinato. Henrique Alves só é
exemplificativo; o rol é extenso. O recente caso de uso de avião da FAB para
transportar familiares e amigos, de Natal ao Rio de Janeiro, para assistirem ao
jogo do Brasil é simplesmente sensacional.
A naturalidade com a qual se
serviu dos recursos alheios só encontra similar na China Imperial. Ser, pois,
um mandarim nordestino faz parte da personalidade, do complexo de ações que
configuram seu cotidiano; algo tão óbvio como o barbear-se diariamente, o levar
o bocado à boca, o sentar-se para descansar, o vergar a espinha em saudação a
Sua Majestade, o declarar aberta a seção no início dos trabalhos parlamentares,
o sentar-se ao vaso para defecar etc., etc., etc.
Mandar vir um avião militar para
buscá-lo em Brasília e passar, primeiro, em Natal rumando, em seguida ao Rio de
Janeiro onde irá exercitar o patriotismo de torcedor da seleção brasileira
(junto com os entes mais queridos, dado que a família vem em primeiro lugar), é
somente parte dos inumeráveis etc. É notável. Exercitar-se no papel de mandarim
dá ao felizardo o mais puro e absoluto sentimento de onipotência. Ousaria
dizer: da própria eternidade! Até o amor é favorecido. O mandarinato, meu
amigo, é afrodisíaco (Tancredo ou Ulisses, não me lembro de qual, talvez ambos,
disseram isso em outras palavras). Tudo a ver: poder e phoder! E, nessas
horas, o tempo parece parar; é um dos sortilégios do amor, à semelhança com a
música.
Para aquele vivenciando, no mais
profundo do ser, o sentimento da eternidade, é banal, é trivial, fazer a
requisição de um bem público para uso particular. Talvez até tenham algum
desconforto; mas não pelos motivos que assolariam um homem comum e, sim, por
ainda ter que solicitar algo que indubitavelmente tem o natural direito de
gozar como queira. Afinal, não é ele um mandarim? A complexa divisão entre
espaço público e espaço privado não consegue vingar no Brasil. Há um jogo de
sedução promovido pelas estruturas cristalizadas de uma burocracia secular, uma
espécie de gafieira de malandro degenerada onde quem está fora, entra, e quem
está dentro, não sai.
Você já observou a fantástica
movimentação em torno da disputa de cargos públicos na atualidade (obtidos em
eleição ou concursos)? Envolve milhões de pessoas e bilhões de reais. Um
mercado em que o desejo de ser como Henrique Alves, como algum burocrata nas
empresas públicas ou na administração direta do executivo (municipal, estadual
ou federal), do legislativo ou do judiciário, em todos os recantos do Brasil
não fazem mais que explicitar o comum e secreto sonho: eu quero ser um
mandarim! Poucos resistem a tal tentação.
Desconfio que também os clientes
das inumeráveis bolsas, inclusive a irrisória bolsa família, consideram as
dádivas recebidas dos governos uma obrigação tão natural quanto o considera
Henrique Alves o uso de avião da FAB para seu turismo particular: uma
bolsa-jato, ou bolsa-gasolina ou bolsa-querosene, sei lá qual o melhor nome.
Não me surpreenderia se surgissem por aí, no bojo das manifestações a respeito
do trânsito e da mobilidade urbana, reivindicações de bolsa-Mercedes Benz, ou
bolsa-BMW.
Chega de Fiat UNO ou Golzinho
básico de mil cilindradas. A classe média também quer um pedaço do paraíso
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