Por Augusto Nunes, 05/09/2015,
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VALENTINA DE
BOTAS
A bela e eterna Rachel de “Friends”, referindo-se à
felicidade banal entre ela e o então marido, na pré-hecatombe Angelina Jolie,
disse que “eu e Brad temos jantares silenciosos”. No Brasil em agonia, falta
oposição enquanto sobra uma presidente que, sem saber sanar o rombo que soube
cavar, achou que a fajuta transparência do ultraje na apresentação do orçamento
com rombo maquiado abafaria o estrondo da hecatombe fiscal. Do fundo da cratera
ética, acha que transparência não é obrigação do governante, mas concessão.
O rombo é também na moralidade da administração
pública, nas relações institucionais, na interação entre o governo e a
sociedade, na decência da política externa. Rombo no nosso futuro, na nossa
paciência esgotada, na nossa cidadania rarefeita, na nossa espera
desesperançada. Dilma não sabe que já basta. Dilma não sabe quando parar, Dilma
não sabe nada. Quanto mais Dilma tiver, mais teremos desse buraco. Nos últimos
dias, houve uma CPMF que não haverá; a resposta intolerável de Rodrigo Janot à
solitação de Gilmar Mendes; fora o resto no país em que não falta notícia.
Falta a oposição com a própria narrativa dos
acontecimentos: é pela narrativa que um ente político se faz existir. Ha 13
anos a oposição oficial, num mutismo imperdoável, acorda grogue a cada quatro
anos para o rito eleitoral a que reduziu sua participação na democracia, quando
boceja belos discursos voláteis jurando que, agora sim, tiraria da tal caixa a
esperança remanescente. Eleições perdidas, os opositores retornavam à zona de
conforto e o governo ao conforto dessa zona toda.
O chão agora escapa sob os pés do governo e dos
lulopetistas, reconheça-se, por mérito deles; a oposição oficial nada fez para
isso já que deixou de denunciar cotidianamente a delinqüência cotidiana do
regime, ignorando a lição da oposição real: a resistência democrática se faz no
dia a dia, na perenidade, numa campanha constante não só por eleições, mas por
gerações. Continua ausente ao não elaborar os fatos num discurso – produtor de
traduções – que a inseriria no presente, ao lado da nação sofrida.
Assim, os lulopetistas se apropriaram
discursivamente da realidade e impuseram o engodo, que só não se sustenta mais
pela fadiga do material, como fiel tradução dela. Adiando permanentemente a
primeira vez em que diria a verdade, Dilma afirma que o governo cortou tudo o
que podia e Temer murmura que a presidente não renunciará, guerreira que é.
Cadê a oposição para sustentar que o único corte eficaz é o do nome Dilma
Rousseff na plaquinha à porta do gabinete presidencial e admitir que guerreira
é a nação honesta sobrevivente entre o lulopetismo cafajeste e a oposição
emasculada?
Os anseios da nação espoliada só podem ser
encaminhados por vias institucionais como a oposição oficial, mas essa aí
precisa saber que estamos fartos do silêncio que, oposto àquele que adensava
presenças nos jantares do feliz ex-casal de Hollywood, grita uma ausência.
Adivinhe quem vem para jantar, oposição? Não é a Angelina Jolie, fica a dica.
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