Luiz Inácio Lula da Silva não
sabe viver sem a personagem “Lula”; ele chora porque, em parte ao menos,
acredita na própria farsa
Por Reinaldo
Azevedo, 16/09/2016,
www.veja.com.br
Lula chorou três vezes nesta quinta ao
fazer um discurso puramente político para responder às acusações da Operação
Lava Jato. O discurso, todos pudemos reparar, não muda. Quando, na Presidência
da República, estava no auge da popularidade, ele exaltava os próprios feitos e
sustentava que nunca antes um governante havia feito tanto em benefício do
povo. Agora, mesmo estando numa pior, à ladainha é a mesma. A quem aquela fala
convence?
Quando Sergio Moro determinou a sua
condução coercitiva para depor, em março, ele evocou a figura da jararaca. E
desafiou: se querem matá-la, que lhe esmaguem a cabeça, não o rabo. Era o
discurso da fera ferida. Fez uma ameaça e tomou providências para
concretizá-la: decidiu dar o seu impeachment pessoal a Dilma e retomar o governo.
Ela foi obrigada — o termo é esse — a nomeá-lo chefe da Casa Civil. Não chegou
a tomar posse porque obstado pelo Supremo. Nas conversas telefônicas que vieram
a público, revelou a sua intenção de pôr o Ministério Público Federal no seu
devido lugar. E anunciou: só ele poderia fazê-lo.
Nesta quinta, o tom da indignação e a
tese de fundo eram os mesmos: forças terríveis se conjuraram para tirar do
poder o partido que faz bem ao povo e para impedir a sua candidatura em 2018.
Mas a jararaca deve ter entendido que, de fato, há o risco de uma pedra
esmagar-lhe a cabeça. E Lula então chorou. Uma vez. Duas vezes. Três vezes.
Era um choro sincero? Tão sincero
quanto sincero é o choro de um ator que se deixa realmente ser incorporado pela
personagem. Há teorias da representação. Uma delas é a do russo Stanislavski
(1863-1938). Faço uma síntese sumaríssima para o que nos interessa aqui. O ator
tem de viver intensamente seu personagem, de conhecê-lo, de mergulhar na sua
psicologia. Deve, sem nunca abandonar a técnica, recorrer à sua memória emotiva
e afetiva a colocá-la a serviço do papel. Tem, em suma, de se deixar possuir e,
enquanto viver a vida de um outro, de estar convencido de que é esse outro.
É por isso que já escrevi algumas vezes
que o ator Lula realmente acredita ser a personagem Lula. Ou ainda pior: Lula,
o ator, não consegue viver sem representar a personagem. E isso não deixa de
ser uma forma de tortura, acho eu.
No chororô desta quinta, ele, mais uma
vez, evocou Fernando Henrique Cardoso, que respondeu de modo ironicamente
generoso, dizendo que reconhecia a sua necessidade de desabafar. Mais uma vez,
o petista sugeriu que é melhor e mais bem-sucedido como presidente do que seu
antecessor. Ele sabe ser isso falso de várias maneiras. Mas a lembrança do adversário
era também a referência a um antípoda. FHC deixou com facilidade e rapidez a
faixa presidencial. Transformou-se, num estalar de dedos, num ex-presidente,
voltou a cuidar de seus livros — sim, fazendo política, mas de modo suave —,
exibindo um ar tranqüilo e quase sempre brincalhão — não é do humor rasgado,
mas se nota que empresta a tudo o grão de sal de ironia.
Ou por outra: o homem FHC tinha noção
de que o presidente FHC era uma personagem, mas que ele assumia com o devido
distanciamento. Fora da Presidência, havia a vida intelectual, seus interesses
acadêmicos, um vasto círculo de amizades constituído de pessoas que estão fora
da política e das disputas pelo poder. Fernando Henrique Cardoso podia viver
sem FHC. Luiz Inácio da Silva só sabe ter uma existência sendo Lula.
E isso se revelou nesta quinta mais uma
vez. Depois de a jararaca chorar, evidenciando que jararaca não é — ou, então,
é uma jararaca com medo —, Lula voltou a falar de si mesmo na forma, como
direi, partenogênica. Não é a primeira vez: em 2010, ele avisou os eleitores:
quando virem na cédula eletrônica o nome “Dilma”, é para ler “Lula”. Ontem, ele
disse que os estudantes que ocupam escolas, que os militantes que vão às ruas
contra Temer, que a turma dos sindicatos, bem, todas essas pessoas são
replicantes de… Lula!
Há algo de espantoso e, se eu fosse
apelar à simbologia religiosa, demoníaco neste senhor. Na sua cabeça, ele
inventou o Brasil, reescreveu o seu passado, mudou o seu presente e determinou
o seu futuro. Temendo, e ele teme, ir para a cadeia, ainda assim, anuncia a sua
imortalidade e a sua multiplicação.
Em termos puramente maquiavélicos, Lula
tem a “virtù”, o talento natural, de um fascista. Sejamos gratos aos céus que
não tenha sido, nesse particular, beneficiado pela “fortuna”, pelas
circunstâncias. Ou ele poderia ser o protagonista de uma imensa tragédia.
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