Os indicadores da economia
brasileira apontam para uma recessão prolongada. O tombo será ainda mais
profundo caso o governo não recupere rapidamente a confiança dos investidores
nem consiga evitar o rebaixamento da nota de crédito do país
Por Giuliano
Guandalini e Bianca Alvarenga,
31/07/2015, www.veja.com.br
A conta é
dela, mas nós é que estamos pagando: os erros da política econômica do primeiro
mandato de Dilma Rousseff expuseram o país à tormenta.
As análises econômicas mais realistas e
desapaixonadas indicavam, fazia algum tempo, que a crise na economia brasileira
era um acidente prestes a acontecer. Por seis anos seguidos, o governo pisou
fundo demais no acelerador dos gastos públicos e aliviou o pé no freio do
controle da inflação. Em pouco tempo, arruinou a confiança construída em duas
décadas de ajustes e reformas - sem falar nas manobras na contabilidade
federal. Ao assumir o Ministério da Fazenda, Joaquim Levy apresentou um plano
para evitar o desastre, como o personagem do filme Juventude Transviada
que escapa da morte ao saltar do carro momentos antes da queda no desfiladeiro.
Por alguns meses, parecia que Levy seria
bem-sucedido. O ministro procurou extinguir os trambiques do antecessor e
propôs uma série de medidas para reforçar o caixa do governo e impedir um rombo
ainda maior nas finanças públicas. A iniciativa seria um primeiro passo para
arrumar a casa e retomar os projetos de longo prazo para incentivar o
crescimento econômico. O clima político hostil, entretanto, atrapalhou os
planos do ministro. Quanto mais frágil a situação da presidente Dilma Rousseff
e maior o envolvimento de políticos da base aliada nas revelações da Lava-Jato,
menor a disposição do Congresso para aprovar ajustes impopulares. O tempo sobre
a economia brasileira já estava fechado. Agora, o país está sob a ameaça de
lidar com uma verdadeira tempestade perfeita.
O Brasil não é tão vulnerável como no passado, mas
entrou avariado na trovoada. O povo brasileiro já percebeu, em seu dia a dia, o
aumento no custo de vida, a dificuldade para quitar dívidas, o desemprego de
pessoas conhecidas. O pior, entretanto, está por vir. Principalmente se as
medidas de austeridade nas contas do governo não forem aprovadas. Na semana
passada, a agência americana de classificação de risco Standard & Poor's
reduziu para negativa a avaliação do país. Existe agora uma probabilidade
elevada de rebaixamento da nota do Brasil, possivelmente no próximo ano. Se
assim for, o país perderá, na avaliação da S&P, o status de grau de
investimento. E o que isso significa? A economia deixará de ter acesso ao
crédito farto e barato dos mercados internacionais. Os maiores fundos de pensão
estrangeiros restringem a aplicação em países sem o grau de investimento. Em
vez de ficar mais próximo de países como os Estados Unidos, a Alemanha ou o
Chile, o Brasil seria rebaixado para o grupo de caloteiros contumazes, que
inclui a Grécia, a Argentina e a Venezuela.
Não é apenas o governo que é afetado. As empresas
brasileiras também serão vistas como investimentos especulativos. Ao pôr a nota
do país em perspectiva negativa, a agência fez o mesmo para 41 empresas locais.
Entre elas figuram companhias que, a despeito do cenário econômico adverso,
estão entregando bons resultados e não têm dependência direta do Estado, como
Ambev e NET. Isso acontece porque a nota de crédito do país é o teto de
classificação das empresas. Raramente uma empresa pode ter nota melhor do que o
país no qual ela opera, porque sempre existe o risco de ser afetada por alguma
restrição na transferência de pagamentos.
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